Made In Brazil: 40 anos de Rock de Verdade, e sem perder o gás!

7 fevereiro 2010 | Publicado por Megaphone | Seção/Categoria: Artigos | Textos | Colunas | Colaboradores, Fernando Pineccio (Pinna´s), Música | O Som nosso de cada dia, NOTÍCIAS

Depois dos humildes comentários sobre o Mambo Jambo (Kim Kehl & os Kurandeiros), chegou às minhas mãos o disco ‘Rock de Verdade’, alusivo aos 40 (sim, meus caros: QUARENTA) anos de atividades da banda Made In Brazil. Já havia ouvido alguma coisa na Internet, mas com o disco nas mãos, a conversa é outra.

O disco foi enviado pelo próprio Oswaldo Vecchione, e só pra variar eu atrasei (bastante) na prublicação. Vida anda corrida…

Pois bem. Ritualzinho básico para ouvir: volume máximo, vinho. Daí, para começar a escrever, é um pulinho. A primeira faixa, com uma batida seca num conjunto bumbo/prato seguido de breves acordes melancólicos, anuncia um solo de guitarra nervoso e fulminante. É a cara do Made já no início do álbum.

A letra, com licença: putz que’o paréleos!!! É um tapa na cara da atual indústria fonográfica: “Estou cansado de tanto ouvir porcaria, é de manhã, à tarde, à noite, todo dia”, reclama o grão-mestre da trupe, Oswaldo Vecchione.

O protesto não é diferente da maioria que gosta de música boa, que não precisa ser necessariamente o rock, mas que ao menos tenha conteúdo, mensagem. Enfim, que possa realmente ser chamada de música. O refrão: “Eu quero rock, rock de verdade, rock de verdade eu quero”. É a promessa de um novo coro em shows futuros da banda, com certeza. Basta alguns anos para se popularizar, assim como ocorreu com o Camisa de Vênus, com o ‘bota pra fudê”.

E só pra constar, é durante a execução do refrão que aparece uma voz conhecida dos rockers brazucas: Paulão de Carvalho, o vocalista bêbado, rouco e louco do Velhas Virgens, engrossa o coro dos malditos.

Já falei de ‘Camisa de Vênus’ né? É que a segunda faixa, ‘Tô Ligado no Rock n’ Roll’ traz um dueto entre Oswaldo e Marcelo Nova. A letra é a ‘cara dos caras’: “Todas as noites quando eu me deito, fico vidrado mas não tem jeito, é que eu só penso em mulher… mulher e rock n’ roll’. As teclas típicas aparecem dando o tom, e o dueto, com o sarcasmo conveniente do Oswaldo e o estilo único do Marceleza, ficou, no mínimo, excelente.

A terceira música do disco já começa com um coro da banda, com um destaque para o lindo backing vocal da nossa saudosa Déborah ‘Rainha do Pão de Queijo’ Carvalho, como ostenta os créditos no encarte. ‘Me Abraça e Me Beija e Larga a Cerveja’ é o título da letra, uma crítica-desabafo de um cara que já não suporta o grude de sua parceira com a cevada gelada.

E com a maior e mais antiga banda de blues e rock do Brasil, não poderia ser diferente: ‘Todo Dia Rola Um Blues’. E o título da quarta faixa do álbum encaixa perfeitamente com a melodia: é um ‘bluesão’ arrastado, sofrido, bem raiz e ao mesmo tempo diário e cotidiano. Como deve ser. Oswaldo e Cia discorrem sobre os efeitos do blues, sobre o sentimento pós-audição de um bom blues. “Não consigo ficar triste, o blues levanta o astral”.

Chegamos á quinta faixa do álbum, que traz uma homenagem bacana a Raul Seixas. A letra de ‘Pro Raul’ utiliza analogias relacionadas à composições do Maluco Beleza. Aliás, o termo imortalizado por Raulzito está cravado já na primeira fala da música. É

uma bem-sacada declaração sobre a importância do gênio baiano do rock tupiniquim, cuja melodia abusa dos teclados e deixa tudo mais gostoso. O refrão é muito bem-humorado: “O Raul foi pro beleléu, o Raul deve estar lá no céu, tocando um uma banda com Elvis, John Lennon e Brian Jones”. Ao final, Oswaldo protagoniza um discurso, bem ao estilo de Dom Raulzito, iniciando, inclusive, com um trecho da canção ‘A Lei’.

Em ‘Você é Meu Sol’, sexta faixa do disco, é uma pausa na pegada constante da trilha do álbum. Oswaldo se declara, inicialmente, acompanhado pelo piano e por notas distantes da guitarra. Inicialmente a melodia sai um pouco do blues, mas não deixa de ser belíssima. A presença dos violões do nosso vizinho Júlio ‘Juju Blues’ Ribeiro (filho de Mogi Mirim) e de Fábio ‘Bad Boy’ Brum deixa a música ainda mais marcante. E melancólica. Ótima para ouvir a dois.

De repente tudo volta a ser como era antes. “Eu queimo o pão de queiro, mas eu não queimo a rosca”. A música contém uma deliciosa briga de guitarras entre Celso ‘Kim’ Vecchione, Caio Durazzo e a slide guitar de Alejandro ‘Ale’ Marjanov. E a hilária letra, que tem como bordão principal a escrachada frase “eu gosto é de ‘muié’, yeh, yeh, yeh, yeh”. Um novo dueto acontece, desta vez protagonizado por Oswaldo e o Paulão de Carvalho, que volta para receber com pompas a homenagem prestada pelo Made In Brazil ao Velhas Virgens. É a sétima faixa do álbum.

Na oitava faixa o Made se aventura em uma linha mais hard rock, com pegada progressiva. E novamente a letra é um protesto. Desta vez o assunto é a vida corrida dos dias atuais, esse cotidiano turbulento e cheio de percalços. ‘Vida Loka’ fala dessa loucura, dos desatinos e claro, da esculhambação geral do “Brasil maluco em que vivemos, (onde o) político ladrão recebe o mensalão e o povo, coitado, passa por otário”. Solo de guitarra forte e viril, rápido e rasteiro. A bateria também é destaque, mais rápida e forte que o habitual na linha do Made.

Em seguida, ‘Lenha Pra Queimar’ nos remete ao blues nu e cru, sem frescura e cheio de sedução. A gaita é acariciada por Oswaldo, e o timbre chora e emociona o ouvinte. Pura melancolia. Com participação de Alexander ‘Frauda’ Cavalheri nos teclados, a letra chega fala de amor e ciúmes. Uma das melhores do disco, que lembra um pouco a linha do ‘Fogo na Madeira’.

Chegamos à faixa de número 10 do álbum. ‘Milk Shake & Rock n’ Roll’ também arrepia com as teclas e a letra é uma reclamação que diz respeito ao clima. Tem pandeiro no rock (não é a primeira, outras faixas também se apropriam do instrumento), e, a exemplo de ‘Tô Ligado em Rock n’ Roll’, o saxofonista Octavio Lopez ‘Bangla’ dá a nota com maestria. E a crítica aos americanos e chineses é um barato.

O penúltimo ‘Rock de Verdade’ é um ‘Anjo de Cara Suja’, que traz de volta a mesma melancolia de ‘Lenha Pra Queimar’, ainda que com menos velocidade. É também uma das minhas preferidas, sem sombra de dúvida. Gosto de letras corridas, contadas. Novamente o amor está presente na composição, e a pegada é totalmente Made, que mantém viva sua essência original. Tradicional, típica, nem mais, nem menos. Na medida.

A última faixa ‘oficial’ do disco é uma ‘Festa na Pompéia’, o tradicional bairro paulistano, berço de tantos nomes do rock nacional. E a música é mesmo uma festa. Com o sax de Manito (que participou ainda na faixa 7) e guitarras de Caio Durazzo, Antonio M. de Medeiros Jr. “Babalu” e Celso, a letra discorre sobre uma festa que reúne uma galera da boa: Velhas Virgens, Marcelo Nova, Golpe de Estado, Patrulha do Espaço, O Terço, Os Mutantes, Bixo da Seda, Serguei, Tutty e Casa das Máquinas, Celso Blues Boy, Brabo, Tony Campelo, Os Pholhas e A Bolha. “E a turma do Made vai botar pra quebrar!” Já imaginou a bagunça, regada a muito rock and roll?

Confirmando a promessa de um novo jargão nos shows, o disco finaliza com uma ‘Saideira’: “Eu quero rock, rock de verdade, rock de verdade eu quero!”. Após 40 anos de estrada, o Made está com gás total para muitos outros anos. Long Live to…

► Curiosidades:

Lançado no final de 2008, ‘Rock de Verdade’ é o primeiro disco de inéditas do Made In Brazil após quase dez anos. Antes, em 1998, o ‘Sexo, Blues e Rock ‘n Roll’ demorou cerca de três anos para sair do forno. Foram quase 300 horas de gravação e produção, e o custo chegou a US$ 39 mil. Trata-se do 14º álbum da discografia oficial da banda.

Entre este disco e o ‘Rock de Verdade’, o Made lançou outros três álbuns: ‘Fogo na Madeira’ (Volumes I e II, acústicos e gravados ao vivo), e ‘Massacre’, disco censurado com gravações originais de 1977, quando a ditadura imperava no Brasil.

A pré-produção do ‘Rock de Verdade’ durou 50 horas, sendo realizada entre os meses de dezembro de 2007 e janeiro de 2008, no Estúdio Garagem, em São Paulo. Todos os músicos que estavam excursionando na turnê alusiva aos 40 anos da banda participaram dos arranjos e montagens das 12 faixas do novo disco. A banda entrou em estúdio logo após o carnaval de 2008 para dar início às gravações definitivas do álbum. A previsão era de que o disco ficasse ponto após 120 horas de gravações, no Estúdio Flap, também em São Paulo. Ao final, foram contabilizadas mais de 200 horas de gravação.

Segundo o próprio Oswaldo Vecchione, o disco é repleto de homenagens: “Queimo o Pão de Queijo, Mas Não Queimo a Rosca” (homenagem às Velhas Virgens), “Milk Shake & Rock n’ Roll” (homenagem a Little Richards), “Tô Ligado em Rock n’ Roll” (homenagem aos Rolling Stones), “Rock de Verdade!” (homenagem ao pessoal do Axé, Pagode, Sertanejo, Forró e Funk carioca), “Pro Raul” (homenagem a Raul Seixas), “Vida Loka” (homenagem ao Status Quo), “Lenha Pra Queimar” (homenagem a The Animals), “Anjo de Cara Suja” (homenagem ao Canned Heat), “Todo Dia Rola um Blues” (homenagem a B.B. King & Elmor James) e “Festa na Pompéia” (homenagem aos artistas e bandas do rock nacional).

► Ficha Técnica:

Produção: Oswaldo ‘Rock’ Vecchione e Déborah Carvalho
Direção de Estúdio: Oswaldo ‘Rock’ Vecchione, Celso ‘Kim’ Vecchione, com apoio e Tony Babalu Medeiros na gravação das bases e vozes.
Coordenação Musical: Celso ‘Kim’ Vecchione e Oswaldo ‘Rock’ Vecchione
Arranjos das bases: Oswaldo ‘Rock’ Vecchione e Made In Brazil
Arranjos dos vocais: Deborah Carvalho

► Convidados:

Marcelo Nova em ‘Tô Ligado em Rock n’ Roll’
Paulão de Carvalho em ‘Eu Queimo o Pão de Queijo, Mas Não Queimo a Rosca’ e em ‘Rock de Verdade!’
Tony ‘Babalu’ Medeiros em ‘Festa na Pompéia’
Manito (Os Incríveis e Som Nosso de Cada Dia) em ‘Festa na Pompéia’ e ‘Pão de Queijo’
Alejandro Marjanov ‘Ale’ em várias faixas (slide guitar)
Tony Osanah (Beat Boy´s, Made In Brazil) nas gravações de violão
Alexander ‘Frauda’ Cavalheri (Bando do Velho Jack) em ‘Vida Loka’
Marcelo Watanabi (Saco de Ratos) slides em algumas faixas

► Made In Brazil – Formação 2008

Oswaldo “Rock” Vecchione – Voz, Baixo, Guitarra, Violão, Gaita e Percussão.
Celso “Kim” Vecchione – guitarra, violão, baixo.
Deborah “Rainha do Pão de Queijo” Carvalho – Backing vocals, Percussão
Fabio “Bad boy” Brum – Guitarra (solo & ritmo), Violão
Octavio Lopes “Bangla” – Sax
Rick Vecchione – Bateria

► Participação especial:

Maga Lieri – Backing vocals
Paula Motha – Backing vocals
Elizabeth “Tibet” Queiroz – Backing vocals
Wanderley Issa Mafra – Teclados
Julio “Juju Blues” Ribeiro – Percussão & Backing vocals
Rick Vecchione – bateria
Caio Durazzo – Guitarra (ritmo & solo), Baixo, Violão e Backing vocals

  • Redação Megaphone
  • Texto: Pinna’s (F.P.)
  • Fotos: Divulgação / Reprodução – Made In Brazil
  • Agradecimentos a Oswaldo ‘Rock’ Vecchione & Banda Made In Brazil



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5 comentários
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  1. Muito bom!

    De fato não estamos ouvindo musica boa nesses tempos!
    há muito tempo diga-se de passagem!

    Bjos querido!

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  2. Muito massa…

    Parabéns…E Rock sempre!

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  3. Cara, essa banda é foda! blues e rock da melhor qualidade, nu e cru!

    bela resenha, valeu megaphoner!!!

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  4. olá, sou de campos dos goitacazes, e curto muito o made, lembro q uma vez assisti um show deles no SESC em sao paulo, e me apaixonei!

    vou comprar esse disco tb, aqui essas noticias nao chegam muito rápido rsrs

    Made In brazil, nota mil!

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  5. MADE AINDA SABE FAZER AQUELE ROCK INTIMISTA E DEBOCHADO…

    TOMARE QUIE TOQUEM DE NOVO NA VIRADA CULTURAL ESSE ANO!

    [Reply]

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